O autor do texto abaixo critica, ainda que em linguagem metafórica, a
sociedade contemporânea em relação aos seus hábitos alimentares.
“Vocês que têm mais de 15 anos, se lembram quando a gente comprava
leite em garrafa, na leiteria da esquina? (...)
Mas vocês não se lembram de nada, pô! Vai ver nem sabem o que é vaca.
Nem o que é leite. Estou falando isso porque agora mesmo peguei um
pacote de leite – leite em pacote, imagina, Tereza! – na porta dos fundos e
estava escrito que é pasterizado, ou pasteurizado, sei lá, tem vitamina, é
garantido pela embromatologia, foi enriquecido e o escambau.
Será que isso é mesmo leite? No dicionário diz que leite é outra coisa:
‘Líquido branco, contendo água, proteína, açúcar e sais minerais’. Um
alimento pra ninguém botar defeito. O ser humano o usa há mais de 5.000
anos. É o único alimento só alimento. A carne serve pro animal andar, a
fruta serve pra fazer outra fruta, o ovo serve pra fazer outra galinha (...) O
leite é só leite. Ou toma ou bota fora.
Esse aqui examinando bem, é só pra botar fora. Tem chumbo, tem benzina,
tem mais água do que leite, tem serragem, sou capaz de jurar que nem
vaca tem por trás desse negócio.
Depois o pessoal ainda acha estranho que os meninos não gostem de leite.
Mas, como não gostam? Não gostam como? Nunca tomaram! Múúúúúúú!”
(FERNANDES, Millôr. O Estado de S. Paulo, 22 de agosto de 1999)
A crítica do autor é dirigida:
a) ao desconhecimento, pelas novas gerações, da importância do gado
leiteiro para a economia nacional.
b) à diminuição da produção de leite após o desenvolvimento de
tecnologias que têm substituído os produtos naturais por produtos
artificiais.
c) à artificialização abusiva de alimentos tradicionais, com perda de critério
para julgar sua qualidade e sabor.
d) à permanência de hábitos alimentares a partir da revolução agrícola e da
domesticação de animais iniciada há 5.000 anos.
e) à importância dada ao pacote de leite para a conservação de um produto
perecível e que necessita de aperfeiçoamento tecnológico.